SESSÃO DA CLASSE apresenta: "Um brinde ao fracasso", por Roberto Oliveira


Falar sobre o sucesso esta muito mais para o Roberto Shinyashiki do que para mim. Lair Ribeiro que me desculpe, mas sou muito mais chegado num fracassinho. Tenho uma coleção de pequenos e grandes fracassos na minha vida. Questão de personalidade, gosto ou apego. Aquela “sensação de fracasso” tem seu valor. Oscilo muito, me chicoteio, me elogio. Claro que quero a presença numerosa do público, mas não quero dar a eles o que eles querem. O Shinyashiki diz que para atingir o sucesso tem que “sacrificar feriados e domingos pelo menos uma centena de vezes”. Legal. Devo estar perto do sucesso, porque já acabei com milhares de feriados, detonei milhares de finais de semana ensaiando. Esse papo de sucesso está mais para equipe de vendas, para psicologia motivacional. Prefiro morrer agarrado aos meus lindos fracassos a frequentar os corredores de auto-ajuda das livrarias. Talvez até me fizesse bem, mas não estou preparado pra isso.
Aí eu pensei: o que é sucesso de público em Porto Alegre? Quando muitas e muitas e muitas pessoas vão na tua peça, quantas pessoas são? Aí você sai na capa dos jornais? Não sai. Fica conhecido da noite para o dia? Não, você continua um anônimo. Você ganha uma fortuna? Não, claro que não. Então, que sucesso é esse? Sucesso entre os seus pares. Conhecidíssimo na Casa de Teatro.

Outro pensamento: Sucesso está associado com muita grana. Os caras do Facebook, o dono da Microsoft. Sucesso está associado com muita fama. A Natalie Portman depois do Oscar. Sucesso é estar no topo. Mas, que grana, que fama, que topo aqui em Porto Alegre? O morro da Embratel? Porto Alegre tem, aproximadamente, um milhão e meio de habitantes. Destes quantos frequentam espetáculos de teatro e dança? Cinco por cento? Dois e meio por cento? Em São Paulo, que tem 12 milhões de habitantes, acredita-se que 200 mil vão ao teatro. Quando falamos em sucesso de público em Porto Alegre estamos falando de quanto público? Algo entre 20 e 25.000 que hipoteticamente vão ao teatro.
Também acho que esta nossa discussão está muito confusa. Mistura-se sucesso com êxito, com liberdade, com topo, com fama. O Hamilton inventou até o sucesso geográfico. Haveria o sucesso de público e o sucesso estético. Mas também no caso deste último, se é que isso existe, Porto Alegre nos limita. Que sucesso estético podemos criar com os orçamentos minguados que operamos aqui na cidade? Trabalhamos na precariedade e almejamos o sucesso. É um contra-senso.
Não sei o que é sucesso. Mas, se quiserem conversar sobre alguns bons fracassos é só me procurar. Vamos ter assunto por bastante tempo. Vai ser um sucesso.



Roberto Oliveira, ator e diretor.

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3 Respostas para “SESSÃO DA CLASSE apresenta: "Um brinde ao fracasso", por Roberto Oliveira

  1. é, brother. está na hora do nosso teatro admitir a sua pobreza ou será que nos falta reconhecermos a decadência visceral de porto alegre frente a sua "cultura", seus herdeiros, filhos da fome e do ódio, da alegria, do homem? o que o homem esqueceu e o que nõs, como artístas, esquecemos? eu sou do partido de que o teatro ainda não encontrou o seu lugar no século XXI. não tenho lá essa experiência com dita "arte teatral", mas nesse pequeno espaço que represento, vejo uma carência tanto dos atores quanto do público, quase que uma relação simbiótica. o público, que espera ver aquilo que deseja e o ator, eu, desejando uma galera dentro do cúbo. ai, entretando, tenho algo a questionar no meu trabalho: o que o meu trabalho? o que esse "teatro", a busca pelo cênico? por que estar lá dentro? se você tem algo a dizer, por que logo ali? se não tem, que fazes? e isso pertence principalmente, acredito, aos atores. se eu como ator, desculpe o termo americano, cago e ando para a minha situação interna e externa, se deixo de ir em X ou Y por vaidade, se gasto minhas energias em tutti-fruti gameplay nas masmorras noturnas porto alegrenses, enfim, se o que estou inclusive escrevendo dá direito, posso eu ao menos ter uma chance de voar entre céu e inferno? se queres queimar, então queime. mas por favor, queime sempre de verdade. teatro nada mais é do que o reflexo da sociedade ( ? ) e, para muitos, espelho natural do público. e daí? o problema é anterior a questão. nos artistas ainda somos deveras dispersos. enquanto acharmos que a situação é boa, ninguém virá sentir a nossa falta, aliás, acho que em porto alegre ninguém sente A NOSSA falta. só o artísta, talvez. rola ficar horas, dias, meses até encontrar um senso comum. RUN TO THE HILLS! CLIMB THIS WALL! ou nos aceitamos na mesma merda ou então a coisa irá deixar de ser, se é que já não deixou. aliás, a bagaça precisa explodir mesmo. valem as palavras do Amir Haddad no II Festival de Teatro de Rua ( ou era o primeiro?). Mas era uma coisa assim:- Vai tudo cair. Esse teatro, esses políticos, essas cadeiras, esse pensamento, essa forma de se fazer teatro em um lugar fechado. Não tem como sustentar.falou o mestre. vou deitar, ler uma auto-ajuda e refrescar as minhas bolas no ar-condicionado. aha. sabe o que é mais "cool"? o teatro é o penúltimo que morre.

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